Marina estremeceu ao som agudo do despertador. Mais uma noite sem dormir – o pequeno Misha chorava o tempo todo. E depois vieram aqueles sonhos… Tinham passado seis meses desde que Sergei falecera, mas ainda sonhava com memórias que a faziam acordar em lágrimas.
“Vamos ultrapassar isto, querido”, sussurrou ela suavemente, acariciando gentilmente a cabeça do filho.
Durante todo este tempo, esteve sozinha. Após o funeral, a sua sogra isolou-se completamente, mudou-se para casa de familiares noutra cidade e quase nunca entrou em contacto. Os pais de Marina já viviam as suas próprias vidas há muito tempo, e os seus amigos, apesar do desejo de ajudar, foram-se mudando aos poucos – cada um tinha as suas próprias preocupações, e o seu apoio limitava-se a raros telefonemas.
Nessa manhã, ela decidiu dar um passeio no parque pela primeira vez. O Outono estava excepcionalmente quente, e os raios de sol rompiam as folhas douradas.
“Olha, Mishka, as folhas estão a rodar”, disse Marina com um sorriso, tentando agarrar uma delas com a palma da mão.
E então ela viu-o. Um grande cão cinzento estava sentado imóvel um pouco ao lado, observando-os atentamente. Não havia malícia ou medo no seu olhar — apenas um interesse calmo e significativo.

“A única coisa de que precisamos é de um cão”, murmurou ela e apertou a pega do carrinho com mais força.
Mas o cão não se mexeu. Ele apenas olhou.
No dia seguinte, apareceu de novo. E de novo, e de novo. Agora seguia-os, mantendo a distância, sem tentar aproximar-se, mas também sem ficar para trás.
“Que homem estranho!” A Marina ficou indignada quando a sua vizinha, a tia Valya, ao vê-los, perguntou:
– É teu, Marinochka?
– Não, ele apenas nos segue, não sei porquê.
A mulher olhou atentamente para o cão e acrescentou com um sorriso:
– Parece-me que ele te está a proteger. Viu como ele observa cada passo seu?
E, de facto, parecia que o cão observava o mundo à sua volta, avaliando o potencial perigo. Certa vez, um homem embriagado aproximou-se do carrinho e ouviu-se imediatamente um rosnar alto. Noutra ocasião, os pombos voaram demasiado depressa, assustando Misha, mas este correu imediatamente para a frente, dispersando-os.
Marina habituou-se gradualmente à presença dele. Com o tempo, ela deu-lhe um nome: Druzhok. Comportava-se realmente como o amigo mais dedicado.
“Queres uma salsicha?”, perguntou ela um dia, entregando-lhe o petisco.
O cão pegou na comida, mas não a comeu, mas colocou-a cuidadosamente ao seu lado.
“Orgulhosa…” sorriu ela.
E depois aconteceu algo que mudou tudo.
Novembro estava frio e húmido. Chovia nesse dia, e Marina corria para casa depois da clínica. Misha estava caprichoso depois da vacinação, e ela embalava-o delicadamente:
– Tem paciência, querida, em breve estaremos em casa…
E, de repente, Buddy, que os seguia sempre calmamente, correu para a frente.
Ouviu-se um estalido.
Marina levantou a cabeça – um enorme ramo caía de uma árvore seca, mesmo em cima do carrinho.
O cão conseguiu. No último instante, correu para a frente, empurrando o carrinho para o lado, mas ele próprio se viu sob ataque.
– Meu Deus! – Olhou para o filho com as mãos trémulas. Misha piscou os olhos, assustado, mas saiu ileso. – Meu caro amigo, como está?
O cão estava a coxear, mas tentava levantar-se, mantendo o seu estado de alerta habitual.
Marina levou-o imediatamente à clínica veterinária, onde um médico idoso o examinou longamente e, de repente, franziu o sobrolho:
– Onde o encontrou?
– Começou a seguir-nos. Por que razão pergunta?
– Porque este não é um cão comum. É um antigo cão de assistência. Chamava-se Grom, e pertencia a um treinador de cães da sua região. Morreu em serviço há um ano… Desde então, ninguém se conseguiu aproximar dele.
Marina recuperou o fôlego.
— Há um ano? Um treinador de cães? — A sua voz tremeu. — Como é que ele se chamava?
– Sergey, se não me engano…
O mundo está abalado.
“Seryozha…” ela exalou.
O veterinário olhou-a surpreendido:
– Espera… És a esposa dele?
O cão, que até então estava deitado pacientemente, ganiu subitamente baixinho e deitou a cabeça no colo dela pela primeira vez.
Os três regressaram a casa: Marina, Misha e Grom.
“Encontraste-nos…”, sussurrou ela à noite, acariciando-lhe o pelo. “A Seryozha perguntou-te, certo?”
Grom limitou-se a suspirar pesadamente, sem tirar os olhos do carrinho.
O tempo passou. Misha deu os primeiros passos, segurando-se à lã cinzenta. Pouco depois, começou a falar, e as suas primeiras palavras foram “mamã” e “Gom” — continuava a não conseguir pronunciar a letra “r”.
Marina voltou ao trabalho, sabendo que com Grom poderia ter a certeza da segurança do filho.
Os vizinhos conversavam entre si:
— Viste? A Marina tem uma cadela incrível! Ela cuida tão bem do bebé.
Mas só ela sabia que Grom não estava apenas a proteger o filho. Ele estava a proteger-se a si mesmo.
Todos os anos, no dia da memória de Sergei, vão ao cemitério.
Misha transporta cuidadosamente as flores. Grom senta-se junto ao túmulo, gelando, como uma sentinela fiel.
E a Marina diz baixinho:
– Não se preocupe connosco. Estamos em boas mãos.
E algures ali, para lá das nuvens, Sergei sorri, sabendo que a sua família está sob a proteção de um amigo que nunca os abandonará.