Um velho correu pelo campo com uma pipa, nós rimos dele e depois aprendemos a terrível verdade

Um velhote corria pelo campo com uma pipa, nós rimos dele e depois aprendemos a terrível verdade 

Viemos a uma aldeia remota para filmar – apenas por alguns dias. O local estava esquecido por Deus, com nevoeiro de manhã e celeiros velhos.

No segundo dia reparámos em algo estranho.

Todas as manhãs, exatamente às oito horas, como estava previsto, um velho de calças surradas e ténis velhos emergia de uma casa precária nos arredores da aldeia. Nas mãos, segurava uma enorme pipa vermelha brilhante.

E o seu ritual começou. Correu pelo prado, chapinhando no orvalho, ofegando e arfando. Só que sem alegria.

– Voa, seu desgraçado!.. Anda, voa, és um super-herói, porra!

Ao início, rimos, escondidos atrás da câmara. Depois, discutimos. Havia um mar de versões.

– Talvez esteja a participar em alguma competição local?

– Ou talvez ele se esteja a lembrar da sua infância.

– Ou – disse a nossa operadora com uma cara pensativa – ele é simplesmente louco.

Mas o verdadeiro apogeu da loucura aconteceu ao terceiro dia. Não havia vento algum – nem um sopro. Mas o avô saiu outra vez. Mas não sozinho.

Estava uma mulher com ele – magra, de robe e com ganchos de cabelo. Ele entregou-lhe a corda. Ela, sem dizer uma palavra, correu pelo campo, arrastando a pipa atrás de si.

E depois começou a chover. Trovoada, trovão, relâmpago. E naquele caos – lá estava ele outra vez. Com um guarda-chuva e a mesma pipa. Saltando em poças, tentando voar, encharcados. Ficámos simplesmente chocados.

Finalmente, chegou o último dia de filmagens. E então – como num bom filme – o velho aparece novamente na clareira. Novamente com uma cobra. Não aguentei e decidi perguntar-lhe o motivo daquele estranho comportamento. Ao descobrir a verdade, ficámos todos simplesmente chocados. 😱😱 

E então a sua mulher sai de casa e, ajeitando o lenço na cabeça, grita:

– Então, avô, tirou a carta?

– Claro que passei! Todas as categorias estão abertas!

Olhamo-nos um para o outro. Não resisti e fui ter com ele:

– Com licença… a carta de condução é para cobra?

Olhou para mim, semicerrando os olhos:

– O meu filho desistiu. Ele vive na cidade agora. Ele trabalha. Não tem aqui ligação nenhuma. Nenhuma torre funciona.

Ele desenrolou a pipa. E então vi: preso a ela estava um velho Nokia de botão.

– E este é o telefone antigo dele. Envia-me mensagens de texto quando pode. E eu estou aqui… a correr. Levanto o volume e a mensagem sai. Não há ligação na aldeia.

Falava calmamente, sem emoção. Simplesmente – como um pai que encontrou ali a sua própria forma de estar.

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