Mileide Mihaile surpreende o carnaval com traje feito de páginas de livros descartados e provoca reflexões profundas

Mileide Mihaile transformou o ensaio técnico da Unidos da Tijuca na Sapucaí em um dos momentos mais comentados do carnaval ao surgirem vestida com um traje absolutamente inusitado — uma fantasia construída com cerca de 200 páginas de livros antigos que estavam destinados ao descarte. O visual não era apenas esteticamente impactante, mas carregava um simbolismo forte e profundo que fez o público refletir.

No primeiro olhar, a fantasia chamou a atenção pela originalidade. As páginas de papel reciclado, que se espalhavam pelo corpo como se fossem pétalas ou asas ao vento, transformaram Mileide em uma figura poética em plena avenida. Mas o significado por trás da criação foi o que verdadeiramente incendiou conversas — a homenageada escolhida pela rainha de bateria foi a escritora Carolina Maria de Jesus, figura histórica da literatura brasileira e símbolo de resistência.

Mileide explicou que a escolha do material — páginas descartadas — e o conceito da fantasia vão muito além de um figurino carnavalesco. A influenciadora quis resgatar a memória de uma mulher preta que escreveu livros apesar das adversidades e que, muitas vezes, teve sua obra negligenciada pela sociedade. “Mesmo sabendo que não é o meu lugar de fala, acredito que lutar contra o racismo e qualquer tipo de opressão não deve ser responsabilidade apenas de quem sofre na pele”, afirmou Mileide, ressaltando que o traje representa um ato de reverência à trajetória de Carolina e um protesto silencioso contra a opressão social e racial.

Segundo a própria rainha de bateria, ao se aprofundar na história de Carolina Maria de Jesus, ficou evidente o tamanho das lutas enfrentadas por essa escritora e quão importantes foram suas palavras para abrir portas e vozes para muitas outras mulheres negras. Mileide disse que a obra de Carolina deixou uma herança imensurável e que sua intenção foi trazer essa história à tona em meio à festa, para que ninguém esqueça de sua contribuição e da força que a literatura pode ter como forma de resistência.

O processo criativo da fantasia demandou cerca de dois meses de trabalho artesanal. As páginas imprimidas e cortadas manualmente ganharam vida no traje que, em sua composição, também refletia a ideia de transformação — assim como as borboletas que adornavam o visual simbolizavam a metamorfose de Carolina, que transformou dor em literatura e em voz ativa contra as injustiças.

O resultado foi uma peça que não apenas emocionou, mas também instigou o público a pensar sobre memória, apagamento histórico, a força da palavra escrita e o valor de resgatar histórias que, muitas vezes, são ignoradas pelo grande público. Mileide Mihaile, conhecida por sua presença marcante nos carnavais cariocas e pelo papel como rainha de bateria da Unidos da Tijuca, passou a mensagem de que o carnaval também pode ser uma plataforma de expressão cultural com significado político e social.

 

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