O mundo do espetáculo em Portugal está em polvorosa com uma coincidência que parece saída de um guião de cinema, mas que é a mais pura e crua realidade. Rui Melo, o encenador da nova e ambiciosa produção musical intitulada Sr. Engenheiro, decidiu quebrar o silêncio e abordar um tema que tem dado muito que falar nos bastidores do Teatro Tivoli BBVA. O protagonista da peça, o acarinhado ator Manuel Marques, está a viver uma fase de vida que espelha, de forma quase profética, a narrativa que apresenta todas as noites em cima do palco.
Enquanto Manuel Marques encarna a pele de uma figura inspirada na ascensão e queda de José Sócrates — uma personagem que navega entre o luxo, o poder e os corredores da justiça até ao momento da Operação Marquês —, o ator enfrenta, na sua vida privada, um processo judicial pesado. Manuel Marques foi constituído arguido num caso de violência doméstica, uma mancha grave que paira sobre a sua carreira no preciso momento em que o espetáculo, orçado em cerca de 600 mil euros, chega ao público.

Rui Melo não fugiu à questão e comentou esta “coincidência” bizarra que une a ficção à realidade pessoal do seu ator principal. Para o encenador, o facto de Manuel Marques estar “a braços com a justiça” enquanto interpreta alguém que é o rosto dos tribunais em Portugal cria uma camada de tensão e realismo que ninguém poderia ter previsto. O diretor sublinha que a peça é uma sátira sobre a portugalidade e o chamado desenrasque nacional, mas é impossível ignorar o peso emocional que Manuel transporta para cada ensaio e cada cena.
Nos bastidores, o clima é de concentração absoluta. O próprio ator já confessou que este papel é de uma exigência física e mental brutal, descrevendo o cenário como complexo e sem momentos de descanso. “Estamos sempre alerta, num nível de concentração máximo, não pode haver um descuido”, revelou Manuel Marques, referindo-se à mecânica do espetáculo, embora as suas palavras ecoem também a fase delicada que atravessa fora de cena. Entre trocas de roupa frenéticas e notas musicais, o ator tem de lidar com a pressão de ser o centro das atenções por motivos que preferia ver esquecidos.

A peça, que tem estreia marcada para o Dia das Mentiras, 1 de abril, parece carregar um simbolismo que Rui Melo e a equipa utilizam para provocar o público. Contudo, para Manuel Marques, o desafio é duplo: manter a máscara da comédia enquanto o seu nome é arrastado para as páginas da crónica judicial. O espetáculo promete ser um espelho da sociedade, mas para o protagonista, esse espelho está a refletir uma imagem bem mais sombria do que a simples caricatura de um antigo governante.
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