O ambiente na Assembleia da República era de uma solenidade quase palpável. De cravo vermelho ao peito, um símbolo que carrega o peso de décadas de história, António José Seguro subiu ao púlpito para a sua estreia absoluta como Presidente da República nas celebrações do 25 de Abril. O que se ouviu não foi apenas um discurso protocolar, mas sim um desabafo profundo e um aviso que ecoou por todos os cantos do parlamento: a liberdade que hoje tomamos como garantida é, na verdade, um cristal frágil que pode estilhaçar-se sem aviso prévio.

Com um tom de voz firme, mas visivelmente emocionado, Seguro começou por traçar um paralelo entre a vida e o direito de escolha. Para o Chefe de Estado, ser livre é algo tão intrínseco à nossa existência como o próprio ato de respirar. No entanto, o seu alerta mais sombrio veio logo a seguir. Ele fez questão de sublinhar que a democracia não morre num estrondo súbito ou num golpe de cena cinematográfico. Segundo o Presidente, a liberdade desaparece aos poucos, em silêncio, através de pequenas omissões e da normalização da mentira.

António José Seguro não se limitou a olhar para o passado e para os capitães de Abril, a quem deixou uma saudação carregada de sentimento. Ele trouxe o discurso para a urgência do presente, focando-se em temas que tocam a ferida da sociedade atual. O Presidente defendeu com unhas e dentes a necessidade de uma justiça célere, afirmando que uma justiça que tarda é, na prática, uma liberdade negada. Mais do que isso, colocou o combate à corrupção no centro da sobrevivência democrática e exigiu transparência total nos donativos políticos. Para Seguro, onde existe opacidade, a suspeita cresce como uma erva daninha que asfixia a confiança do povo.
A tecnologia e o futuro digital também estiveram na mira do Chefe de Estado. Num mundo dominado por algoritmos e inteligência artificial, Seguro alertou que o escrutínio deve ser constante para que as decisões que impactam a vida dos cidadãos não se tornem obscuras ou incompreensíveis. A tecnologia, frisou ele sob fortes aplausos, deve servir a humanidade e nunca o contrário.
Ao olhar para os seus filhos e para os conflitos que assolam o mundo, como em Gaza ou na Ucrânia, o Presidente rejeitou o fatalismo. Em vez disso, invocou o espírito dos homens e mulheres que, há 52 anos, trocaram a espingarda pelo cravo. Para ele, a paz não é um objeto herdado que se guarda numa gaveta, mas uma tarefa árdua que exige renovação diária. A mensagem final foi clara e direta: a liberdade exige responsabilidade e instituições íntegras, e cabe a cada português, especialmente aos mais jovens, não se calar e lutar para que o silêncio nunca se instale novamente.