O que começou por ser um projeto pensado apenas para os seguidores mais fiéis de Nuno Markl acabou por ganhar uma dimensão muito mais íntima, emocional e inesperada depois do Acidente Vascular Cerebral que sofreu em novembro. O radialista e humorista, de 54 anos, decidiu pegar naquele que descreve como o momento mais duro da sua vida e transformá-lo no ponto de partida de “O Homem que Mordeu o Cão: o Filme”, uma obra que promete fugir completamente ao que inicialmente tinha imaginado.
Foi num cinema do Centro Comercial Vasco da Gama, em Lisboa, que Markl surgiu perante o público para apresentar oficialmente o projeto cinematográfico que começará a ser rodado em setembro. Ao lado do realizador Sérgio Graciano e do produtor executivo José Amaral, o humorista mostrou-se emocionado, vulnerável e até visivelmente cansado, mas determinado em continuar esta nova fase da sua recuperação.
Confessou que interrompeu por algumas horas a intensa rotina de fisioterapia apenas para marcar presença naquele momento especial. E apesar do desgaste físico evidente, não escondeu a felicidade por finalmente conseguir falar de um projeto que considera profundamente pessoal. Nas redes sociais, partilhou que este é “o projeto mais importante” da sua vida, logo a seguir ao processo de recuperação que ainda atravessa diariamente.
Inicialmente, o filme tinha sido pensado como uma homenagem aos fãs de longa data das suas histórias na rádio e dos livros que marcaram várias gerações. A ideia passava por reunir oito ou nove histórias clássicas de “O Homem que Mordeu o Cão”, interpretadas por vários atores conhecidos, num formato inspirado nos grandes filmes de antologia. Mas tudo mudou depois do AVC.

Nuno Markl explicou que durante as sessões de psicoterapia começou a perceber que precisava de contar algo mais profundo. Sentia que muitas pessoas já o olhavam apenas como a figura ligada ao universo humorístico de “O Homem que Mordeu o Cão”, mas dentro dele existia uma vontade enorme de mostrar outras histórias, outros lados de si próprio e até emoções menos associadas ao humor.
Foi então que surgiu a decisão de transformar o filme numa narrativa muito mais pessoal. O momento do AVC passou a ocupar o centro da história e será, segundo o próprio, a primeira imagem vista pelos espectadores. Markl revelou que o filme começa precisamente consigo a sofrer o AVC enquanto estava sentado na sanita, acabando por ser salvo pelo filho, Pedro Galvão Markl, de 15 anos.
Apesar da carga dramática do episódio, o humorista garante que continuará a existir espaço para humor. Disse mesmo que aquele momento acabará tratado com a ironia e o tom peculiar que sempre marcaram a sua forma de contar histórias. Segundo explicou, as memórias e histórias de “O Homem que Mordeu o Cão” vão surgindo dentro da sua mente ao longo do filme, funcionando quase como peças que ajudam a reconstruir não só o corpo, mas também a vontade de voltar à rádio e à vida que conhecia antes.
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Durante a apresentação, Markl mostrou-se emocionado perante a plateia e assumiu estar particularmente nervoso. Confessou que era a primeira vez, em seis meses, que se encontrava diante de tantas pessoas. Entre sorrisos e momentos mais sensíveis, falou abertamente sobre as limitações físicas que ainda enfrenta diariamente.
Explicou que normalmente já consegue esticar o braço ao longo do corpo, mas que o nervosismo daquele instante acabou por bloquear alguns movimentos. Também revelou que a perna tem vindo a recuperar lentamente e lembrou que há apenas três meses praticamente não conseguia mexer nenhuma daquelas partes do corpo. Descreveu todo o processo como “uma luta louca”, marcada por esforço constante e pequenas vitórias diárias.
O coapresentador de “TaskMaster” acredita que chegará a setembro mais forte e preparado para iniciar as filmagens, embora admita que não quer perder totalmente a fragilidade emocional e física deste momento da sua vida. Considera que isso poderá trazer ainda mais verdade à personagem que vai interpretar: ele próprio.

Entre aplausos e olhares atentos do público, Nuno Markl deixou ainda um pedido sincero. Disse esperar que tudo corra bem e que este filme consiga representar não apenas o humor que o tornou conhecido, mas também o caminho difícil que percorre desde novembro. Um caminho que agora decidiu partilhar sem filtros e transformar numa história muito mais humana do que alguém imaginava.