O ambiente no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, estava carregado de pura eletricidade e nostalgia profunda, mas ninguém na plateia do festival Coala estava verdadeiramente preparado para o soco no estômago emocional que estava por vir. O lendário e eterno ícone da música popular brasileira, Caetano Veloso, subiu ao palco esbanjando a sua energia habitual aos 83 anos de idade, arriscando até alguns passos de dança contagiantes logo nos primeiros acordes da noite. A multidão, completamente rendida ao carisma do mestre da MPB, cantava em uníssono absoluto clássicos eternos como Luz do Sol, Gente e Minhas Lágrimas, criando uma atmosfera que parecia saída de um sonho de verão em pleno solo português.
Mas foi no meio dessa celebração vibrante que o coração dos milhares de espectadores presentes pareceu parar por um segundo. Num momento de total entrega e intimidade com o público, Caetano Veloso decidiu prestar uma homenagem profundamente emotiva e carregada de saudade a Diogo, o seu falecido motorista em Portugal, o homem que, segundo as palavras cheias de afeto do próprio artista, o levou a conhecer cada canto, cada detalhe e cada beleza da terra lusa ao longo de décadas de amizade e estrada.

Para honrar a memória do querido amigo que partiu, o cantor baiano escolheu interpretar um fado muito especial. O artista revelou, com os olhos brilhantes de emoção, que aprendeu aquela canção, intitulada A Rosinha dos Limões, quando tinha apenas nove ou dez anos de idade. Explicou ainda que, todas as vezes que regressa a este país que tanto ama, faz questão absoluta de cantar fado. Foi precisamente nesse instante de sensibilidade extrema que Caetano Veloso soltou o desabafo que deixou toda a gente em lágrimas e com um nó na garganta, ao confessar em pleno palco que esta pode muito bem ser a última vez que viaja do Brasil até Portugal.
Esta não é, na verdade, a primeira vez que o fantasma da despedida ronda as apresentações do cantor em território português. Já em 2023, durante a aclamada digressão Meu Coco, a lenda viva da MPB tinha deixado escapar que aquela poderia ser uma das suas derradeiras passagens pela Europa. Apesar dos avisos do passado, o mestre acabou por regressar este ano para a estrada com o formato Caetano nos Festivais, arrancando suspiros e aplausos calorosos por onde passa.

A verdade é que a idade avançada pesa e o próprio artista já tinha recorrido às suas redes sociais oficiais, pouco antes de cruzar o Oceano Atlântico, para partilhar com os seus seguidores este mesmo sentimento de encerramento de um ciclo. Ele assumiu abertamente que estava a caminho do continente europeu sabendo que, muito provavelmente, seria a sua última grande viagem de concertos por estas paragens. O músico revelou que este espetáculo específico foi inteiramente montado logo após a conclusão da gigantesca e histórica digressão que realizou ao lado da sua irmã, Maria Bethânia, que arrastou multidões inacreditáveis por todo o Brasil. Na altura desse anúncio na internet, Caetano confessou que a magnitude de realizar uma nova digressão internacional nesta fase da sua vida representava algo imenso, uma verdadeira avalanche tanto para a sua cabeça como para o seu coração.

O concerto em Cascais continuou sob o signo da comoção e da genialidade, desfilando hinos geracionais que marcam a história da música global, tais como Sozinho, Eclipse Oculto, Anjos Tronchos, Podres Poderes, Cajuína e, como não poderia faltar para o delírio do público, o hino eterno Leãozinho. Após deixar a sua marca indelével e o seu coração no palco de Cascais, e tendo também já passado pela Super Bock Arena, na cidade do Porto, o artista que celebra o seu 84.º aniversário no próximo mês de agosto prepara-se agora para rumar à vizinha Espanha. É em Madrid que Caetano Veloso irá realizar o último espetáculo desta atual digressão europeia, deixando atrás de si um rastro de saudade e a dolorosa incerteza sobre se voltaremos alguma vez a ver o mestre pisar um palco no lado de cá do oceano.